E na Aurora

Eu sempre gostei das flores.
Quando eu era pequena, aos três para ser exata, minha mãe me levava até a fazenda do seu irmão. Ele tinha um terreno grande e jardins repletos de flores. Flores de todas as cores que você possa imaginar. Naquela época, eu não sabia exatamente o nome de todas elas, conseguia distinguir o as azuis, as amarelas e as vermelhas. Inventava nomes para as cores que se misturavam e formavam uma nova. Tinha um caderno, esse que ganhei de aniversário do meu tio, onde eu colocava cada uma das flores e escrevia sua cor. Algumas eram "brancazul", outras eram "amarosa".

Aos seis passava a maior parte do dia entre os corredores dos jardins, visitava cada flor individualmente e contava para elas histórias sobre a minha vida. Meu tio me acompanhava e explicava sobre o nome real de cada uma delas. Alguns nomes eram difíceis e eu não conseguia memorizar, então, passei a escrevê-los no caderninho. Ao final da tarde, minha família se reunia em um campo grande e faziam uma fogueira. Meu irmão tocava violão e minha mãe distribuía as varetas onde colocaríamos o marshmellow. Meu tio era tão prestativo, eu admirava sua bondade em se importar comigo. Eu não tinha força nos dedos, então, ele segurava minha mão pequena com a sua e me ajudava a encaixar o marshmellow em um dos pauzinhos. Eu lhe retribuía um sorriso e ele acariciava minha mão.

Aos dez eu já frequentava a fazenda com muita frequência. Minha mãe me levava aos finais de semana e me deixava dormir por lá. Acordava cedo e ia direto para o jardim, via o nascer do sol, apreciava os raios tímidos tocarem as flores aos poucos. Algumas mais vergonhosas demoravam a desabrochar, mas eu as esperava, ao lado dos lírios brancos. Sempre admirei sua graciosidade, as pétalas eram grandes perto das minhas mãos. Eu os imaginava como anjos, a cor pura e tão clara me lembrava as vestimentas que via em esculturas na igreja da minha cidade. As pétalas tinham caimentos como tecidos finos, e quando uma brisa leve os atingia, eles se movimentavam com suavidade, assim como a seda.

Meu tio chegava alguns minutos depois, ele me trazia chocolate quente e se sentava ao meu lado. Apreciávamos a brisa, o canto ainda fraco dos pássaros, a luz sutil do sol que banhava nossos rostos ainda adormecidos. Ele envolvia suas pernas sobre meu corpo pequeno e acariciava meu cabelo. Dizia o quanto as flores eram irrelevantes diante a minha beleza, e que a minha pureza as ofuscava. Ficava triste pelas flores, elas eram tão lindas quanto mim, tão puras, tão simples e tão graciosas quanto qualquer outra coisa que viva sobre a terra.

Aos doze eu aprendi a plantar. Minha mãe me comprou uma pá e algumas sementes. Meu tio reservou um canteiro apenas para mim, e disse que eu podia escolher qualquer nome para ele. Peguei tinta e um pedaço de madeira que estava jogado próximo a mim, sentei-me sobre o chão e escrevi com da forma mais caprichada que consegui. Aurora. 

Um dia, logo depois de voltar da fazenda vi minha mãe chorar. Ouvia atrás da porta os consolos do meu pai. Minha mãe falava pelo telefone, sua voz era interrompida pelos soluços e eu não podia entender o que dizia. E só agora posso entender o que significava aquelas palavras difíceis e o motivo por ela chorar tanto.

Depois desse dia eu não visitei mais a fazenda.

Aos dezesseis, quase perto de completar os dezessete meu tio me ligou. Eu sabia que não podia falar com ele, minha mãe havia cortado todo tipo de contato entre nós. Estremeci ao ouvir sua voz, uma onda de temor percorreu por todo meu corpo, minha cabeça doeu em instantes e eu senti medo. Medo, eu nunca havia sentido medo dele. Eu o amava, eu amava por ser carinhoso, amava por ter me ensinado a plantar, amava por ter me apresentado aos lírios, as tulipas, aos cravos e todas as outras espécies. Mas naquele momento, exatamente naquele momento eu o temi. Era confuso, meu estômago estava embrulhado e eu tremia.

"Ei, tudo bem?"

O respondi com a voz tremula. E ao final da chamada a sensação passou. Não tinha motivos para temê-lo, eu afirmava com toda convicção. Era só mais uma viagem a fazenda, minha mãe não se importaria e eu, finalmente, poderia rever a aurora.

Às 4h ele me buscou, sai escondida pela janela do quarto. Estava acompanhada pelo meu caderno e uma câmera fotográfica, essa que serviria para eternizar meu último momento ao lado das flores. A viagem foi longa e durante o percurso ele não parou de falar. Eu observava seus lábios finos umedecerem conforme o final das frases, e a saliva escapava entre eles conforme falava. Seus óculos eram os mesmos, a armação estava velha e remendada, as lentes estavam sujas e seus olhos mais imundos ainda. Senti nojo de sua aparência, senti nojo da sua respiração ofegante ao falar comigo, senti nojo do seu cabelo oleoso, nojo da sua barba, nojo do seu toque frio no meu joelho. Me esquivava conforme sua mão subia meu vestido.

Quando finalmente chegamos na fazenda eu saltei do carro e caminhei apressadamente até o canteiro. E como uma brisa fria depois da tempestade, eu me senti leve. As flores haviam se multiplicado e já se ocupavam todo o campo. Apreciei cada uma individualmente em questão de segundos, fechei os olhos e apreciei seus seu cheiro característico. Caminhei sob a terra úmida dos corredores, toquei cada uma delas, senti suas texturas macias e me senti protegida. Apanhei algumas e coloquei no bolso, retirei o caderno surrado e descrevi a sensação de estar lá novamente.

E no final do último corredor pude ver a aurora. Ela ocupava mais do que um corredor, se estendia até o por toda extensão do campo, era uma nuvem branca imergida naquele arco-ires. E pregado no chão, uma plaquinha de madeira indicava seu nome. A letra era torta e quase não se podia ler. Fotografei cada pedaço do canteiro, conversei com os lírios, chorei pelos que se decompunham no chão, pois não tive a chance de conhecê-los devidamente.

Queria viver esse momento para sempre, queria andar entre os corredores até meu último suspiro ou até que as minhas pernas cedessem e eu caísse sobre o chão. Queria tornar-me aquele momento.
Eu ainda estava com a câmera apontada para um lírio que se desabrochava quando senti o toque frio na minha nuca. Não tive tempo de recuar, pois a outra mão já segurava meu braço. A câmera caiu sobre a terra e eu também. Seu corpo pesado impedia que meus membros realizassem qualquer movimento, eu estava presa e sabia que não havia como sair dali. E então, tudo silenciou. Eu vi os lírios, eu ouvi o canto dos pássaros, eu senti a terra úmida contra minha bochecha, eu senti o áspero gosto da terra em minha língua. Eu vi a aurora nascer, eu senti os raios solares queimarem sutilmente meus olhos, então eu os fechei. Eu já não sentia o medo, não sentia a dor. A brisa queimava minha pele em contraste aos dedos ásperos que abandonavam meu corpo jogado no canteiro. Permaneci congelada, e nesses poucos segundos de imergidão nos meus pensamentos eu pude me lembrar de tudo. Me lembrei dos toques em minha mão aos seis anos, lembrei de observar o nascer do sol enquanto ele rasgava minha roupa, lembrei do choro da minha mãe e finalmente entendi o porque de não poder mais ver as flores.

E meu amor, meu carinho e tudo o que sentia por ele, se tornou em ódio, mas o ódio completamente inútil, pois naquele momento, naqueles últimos segundos, eu não tive forças. Seu rosto contra o sol, sua testa suada e a objeto metálico em suas mãos não foram suficientes para me levantar do chão e me fazer fugir. E os lírios, tão brancos e puros, aqueles mesmos lírios que me remetiam a anjos, adornavam agora gotas em vermelho.